Rios ocultos e sonhos em um barquinho a navegar

barquinho19

“A  última parada do bonde era nas Clínicas  na avenida Dr. Arnaldo, passávamos os cemitérios e descíamos a montanha pois não existia o Viaduto Sumaré… Lá existia  o forno do lixo, um córrego e umas 15 casinhas humildes nas margens dele.  

Hoje, onde existe a avenida Sumaré corria um córrego estreito cercado de árvores. O  Sumaré era um bairro de mato baixo e esta era a única região com árvores altas!  Nossa brincadeira favorita era fazer expedições pelos matos daqui e sempre terminávamos no riozinho de lá! Tinha muita amora, peixinhos que os meninos gostavam de pescar, tão  pequeninhos nem dava pra comer! Caçávamos sapos e girinos também! No calor  toda a criançada entrava pra se refrescar e era uma festa!

 Era uma região muito bonita com muitos tipos de musgo, orelhas de pau, muita orquídea principalmente a orquídea Sumaré que dá nome ao bairro. Recolhíamos para fazer o herbário para a escola.

Existia uma bica na rua Pombal que o Instituto Butantã examinou e disse que era muito boa para tomar. Então todo final de tarde o programa das jovens e crianças era buscar água nessa bica! Os meninos da rua Oscar Freire que eram terríveis se escondiam no mato bem no caminho da bica e davam susto em quem passava! Naquela época esses eram os meninos terríveis, os que davam susto e falavam palavrão! Tudo tão diferente de hoje em dia…”

Lúcia Oliveira Ribeiro de Queiroz, 89 anos
moradora do bairro do Sumaré desde o nascimento

………………….

Quem como nós cresceu, viveu ou trabalhou na região da Pompéia, Vila Madalena e Sumaré sempre se deparou com os alagamentos após temporais na Avenida Pompéia ou Beco do Batman.

Ainda pequenas descobrimos surpresas que por lá passam rios, hoje escondidos mas que em  dias distantes já correram a céu aberto. Conhecidos como rios ocultos, eles sempre cruzam nossos caminhos como por exemplo o corredor da rua Wanderley ou no Sesc Pompéia (num trecho pequeno em que podemos ver suas águas correndo).

“Viela localizada entre as ruas Tavares Bastos e Vanderlei sobre o braço sobre o córrego da Água Branca, que delimita a vila Pompéia, canalizado” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

“Viela localizada entre as ruas Tavares Bastos e Vanderlei sobre o braço sobre o córrego da Água Branca, que delimita a vila Pompéia, canalizado” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

“Viela com acesso a rua Barão do Bananal sobre o córrego da Água Preta canalizado” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

“Viela com acesso a rua Barão do Bananal sobre o córrego da Água Preta canalizado” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

“Lateral do SESC Fábrica Pompéia, voltada para a rua Barão do Bananal, onde está canalizado o córrego da Água Preta.” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

“Lateral do SESC Fábrica Pompéia, voltada para a rua Barão do Bananal, onde está canalizado o córrego da Água Preta.” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

Eles sempre nos intrigaram pois é inevitável não pensarmos: como eram antes de estarem ocultos?

Como corriam? Qual seu trajeto?  Como era a vida por aqui em torno desse rio?

Como seria a nossa vida hoje se este rio estivesse aberto?

Porque esses rios foram enterrados?

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“Na década de 1960 o córrego da Água Preta poluído e com suas margens ocupadas” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

A cidade de São Paulo nasceu em lugar estratégico  onde  já existiam aldeias indígenas: nas colinas entre dois rios.  O  ribeirão Anhangabaú fornecia água limpa e peixes e o rio Piratininga (hoje rio Tamanduatei)  possibilitava uma excelente  locomoção via fluvial  pois se ligava a outros rios grandes como o Tietê. Mas a cidade cresceu.  Surgiram as ferrovias trazendo peixes do litoral,  a água passou a ser encanada e o esgoto jogado diretamente nos córregos. Os rios perderam sua importância inicial e se tornaram obstáculos as ambições paulistanas.

Pontes e viadutos como do Chá foram construídos libertando a cidade  dos limites impostos pelos primeiros rios.

No final da década de 30, o prefeito Prestes Maia deu inicio ao seu plano de avenidas, que embora baseado em modelos de cidades européias (Paris, Moscou e Viena) desconsiderou o fato destas também possuírem hidrovias e ferrovias bem estruturadas. Neste processo despontaram a especulação imobiliária, as desapropriações das várzeas em função do baixo custo, a construção de inúmeras avenidas , a valorização do carro não só como meio de transporte mas como símbolo da modernização, a retificação, canalização e soterramento dos nossos rios e córregos.

Hoje são inúmeros os rios enterrados. Entre eles o córrego Sumaré e o Rio da Água Preta.

O rio Água Preta nasce numa praça, passa pela rua Paulo Vieira, atravessa garagens e ruas, corta o Sesc e a Avenida Pompéia, segue por um beco no fundo das casas e deságua no Tietê. Já o córrego do Sumaré ( também chamado de córrego da Água Branca) nasce na Praça Abelardo Rocas próxima a Dr. Arnaldo segue em direção ao rio Água Preta depois de passar pela Avenida Sumaré, e segue até a Avenida Pompéia para desaguar no rio Tietê.

“Trecho do levantamento Sara Brasil, da cidade de São Paulo de 1930. Notam-se ocupações pontuais no bairro da vila Pompéia, na várzea do córrego da Água Preta não ocupada e a várzea do córrego da Água Branca, entre a vila Pompéia e Perdizes, com ocupações pontuais.” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

“Trecho do levantamento Sara Brasil, da cidade de São Paulo de 1930. Notam-se ocupações pontuais no bairro da vila Pompéia, na várzea do córrego da Água Preta não ocupada e a várzea do córrego da Água Branca, entre a vila Pompéia e Perdizes, com ocupações pontuais.” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

Sobre estes dois rios ocultos que atravessamos todos os dias  que, colocamos a navegar os nossos e os seus barquinhos carregados de sonhos. Barquinhos de papel feitos de memórias de infância com a coragem de enfrentar o mundo na aventura de buscar o novo. Barcos tripulados de sonhos de  desconhecidos como aqueles que esbarramos nas calçadas, sentamos ao lado no ônibus, damos bom dia no elevador.

A cidade ainda é água que corre em segredo.

A cidade ainda está disposta a navegar.

A cidade  ainda  sonha.

Ainda existe, escondido bem no fundo, um instinto primitivo que reconhece um cheiro de umidade, um barulho de água, a sinuosidade de uma rua.

Desperte este instinto, sinta a cidade e quem sabe não perceba que debaixo do asfalto dos seus pés ainda corre um rio.

“No fundo da residência da família Bombarda passava o córrego da Água Preta (c. 1942)” – Vania Tramontino, O Espaço Livre na Vida Cotidiana, FAU/USP, 2011.

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Referências e inspirações para quem quer saber mais!

wikipedia – Avenida Sumaré

revista trip – São Paulo e o Rio

entre rios

rios e ruas – Instituto Harmonia

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  1. Beno Reicher

    que história linda, e a foto, que fotografia, que luz??????? Lindo!!! Parabéns pela iniciativa. Forte abraço, Beno Reicher

  2. José eduardo

    O sonho e a utopia fazem a humanidade caminhar.Continue assim!

  3. desejosurbanossp

    😉 bóra sonhar!

  4. desejosurbanossp

    Valeu Beno, em breve um minidoc sobre o projeto.

  5. Pingback: Pus meu sonho num barquinho – Expedição Ribeirão das Flores | Desejos Urbanos

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